A escolha entre atuar como médico autônomo (Pessoa Física) ou como Pessoa Jurídica (PJ) é, sem dúvida, a decisão financeira mais importante na carreira de um profissional da saúde. Essa definição impacta diretamente sua carga tributária, sua segurança patrimonial e sua capacidade de construir riqueza a longo prazo.

Muitos médicos, especialmente em início de carreira ou prestando plantões, começam como autônomos e sentem o peso de uma tributação que pode chegar a 27,5% de Imposto de Renda (IRPF), somada a 20% de contribuição ao INSS. A pergunta que inevitavelmente surge é: existe um caminho legal e mais inteligente para reduzir essa carga e pagar menos impostos?

A resposta é sim. Este artigo é uma análise comparativa definitiva para 2025/2026. Vamos detalhar as diferenças legais e os riscos de cada modelo e, o mais importante, apresentar uma simulação numérica clara e irrefutável para provar qual modelo deixa mais dinheiro no seu bolso ao final do mês.

 

Entendendo os modelos: a diferença entre autônomo e PJ

Antes da simulação, é fundamental entender as regras do jogo para cada modelo, pois a diferença entre autônomo e PJ vai além dos impostos.

 

O que é ser um médico autônomo (pessoa física)?

O médico autônomo é o profissional que presta serviços utilizando o seu próprio CPF. Ele não possui um CNPJ e sua receita é o seu rendimento de pessoa física. Ele geralmente recebe de duas formas: diretamente de pacientes (obrigado a emitir recibo) ou de clínicas e hospitais (através de um RPA – Recibo de Pagamento de Autônomo).

As obrigações fiscais do autônomo são complexas e caras. Ele é obrigado a fazer o recolhimento mensal do Imposto de Renda através do Carnê-Leão, aplicando a tabela progressiva do IRPF. Além disso, deve recolher o INSS como contribuinte individual, na alíquota de 20% sobre o total de seus rendimentos, respeitando o teto da previdência.

O maior risco desse modelo, além da alta carga tributária, é a responsabilidade ilimitada. Isso significa que os bens pessoais do médico (casa, carro, investimentos) podem ser usados para quitar qualquer dívida ou processo trabalhista relacionado à sua atividade profissional. Suas finanças pessoais e profissionais são, legalmente, a mesma coisa. Para entender os riscos, é vital ler o guia sobre o IRPF para Médicos.

 

O que é ser um médico PJ (pessoa jurídica)?

O médico PJ é o profissional que decide abrir um CNPJ para médicos e passa a prestar seus serviços como uma empresa. Na maioria dos casos, ele abre uma SLU (Sociedade Limitada Unipessoal), que não exige sócios e protege seu patrimônio pessoal. A clínica ou hospital, em vez de contratar o CPF do médico, contrata o CNPJ da empresa dele, que emite notas fiscais pelos serviços.

As obrigações fiscais mudam completamente. A empresa paga seus impostos de forma unificada, geralmente pelo Simples Nacional, com alíquotas muito menores. O médico (sócio) recebe seus rendimentos de duas formas: uma parte como pró-labore (um “salário” com desconto de INSS e IR na fonte) e a maior parte como distribuição de lucros, que é 100% isenta de Imposto de Renda.

O principal benefício é a proteção patrimonial (responsabilidade limitada), pois os bens pessoais do médico não se misturam com os da empresa. E, como veremos a seguir, a economia de impostos é massiva.

 

A simulação definitiva: quanto paga um médico de imposto em cada modelo?

Vamos aos números. A matemática é a melhor ferramenta para acabar com qualquer dúvida entre PJ ou autônomo médico.

 

O cenário: um médico com faturamento de R$ 20.000,00 por mês

Usaremos como base um faturamento mensal de R$ 20.000,00, um valor comum para um médico que já consolidou sua agenda de atendimentos ou plantões. Não consideraremos despesas dedutíveis no Livro-Caixa do autônomo (como aluguel de consultório) para manter a comparação focada apenas na carga tributária sobre a renda.

 

Cálculo 1: o imposto como médico autônomo

Ao faturar R$ 20.000,00 como pessoa física, o médico tem duas obrigações principais:

  • INSS (Contribuição Previdenciária): a lei exige 20% sobre o rendimento, mas essa contribuição é limitada ao teto do INSS. Em 2024, o teto é de R$ 7.786,02, conforme a Portaria Interministerial MPS/MF Nº 2/2024.
    • Custo do INSS: 20% de R$ 7.786,02 = **R$ 1.557,20**
  • IRPF (Carnê-Leão): O INSS pago é uma despesa dedutível para o cálculo do Imposto de Renda.
    • Base de Cálculo: R$ 20.000,00 (Faturamento) – R$ 1.557,20 (INSS) = R$ 18.442,80
    • Cálculo do IR: Usando a Tabela Progressiva do IRPF (Alíquota de 27,5% com dedução de R$ 896,00): (R$ 18.442,80 * 0,275) – R$ 896,00 = R$ 5.071,77 – R$ 896,00
    • Custo do IRPF: R$ 4.175,77
  • Total de Impostos (Autônomo): R$ 1.557,20 (INSS) + R$ 4.175,77 (IRPF) = R$ 5.732,97

 

Cálculo 2: o imposto como médico PJ (simples nacional)

Para o mesmo faturamento de R$ 20.000,00, o médico PJ, orientado por um contador especialista, usará a estratégia do Fator R. Para se enquadrar no Anexo III (alíquota inicial de 6%), sua folha de pagamento (pró-labore) deve ser de, no mínimo, 28% do faturamento.

  • Estratégia: Pró-labore de R$ 5.600,00 (28% de R$ 20.000,00).
  • Imposto da Empresa (DAS): alíquota de 6% sobre o faturamento total.
    • Custo da Empresa: 6% de R$ 20.000,00 = **R$ 1.200,00**
  • Impostos do Sócio (sobre o Pró-labore de R$ 5.600):
    • INSS (11% retido do sócio): 11% de R$ 5.600,00 = **R$ 616,00**
    • IRRF (Retido na Fonte, base = R$ 5.600 – R$ 616): (R$ 4.984,00 * 0,275) – R$ 896,00 = R$ 474,60
  • Total de Impostos (PJ): R$ 1.200,00 (Empresa) + R$ 616,00 (INSS Sócio) + R$ 474,60 (IRRF Sócio) = **R$ 2.290,60**

 

O veredito: PJ ou autônomo médico?

Vamos colocar os números lado a lado para um faturamento de R$ 20.000,00 por mês:

  • Total de Impostos como Autônomo: R$ 5.732,97
  • Total de Impostos como PJ: R$ 2.290,60

A migração de médico autônomo para PJ gera uma economia mensal de R$ 3.442,37. Em um ano, a economia direta em impostos é de R$ 41.308,44. Esse valor não é uma estimativa; é o resultado do planejamento tributário correto.

Além disso, como PJ, o médico ainda teria R$ 12.109,40 (R$ 20.000 – R$ 1.200 (DAS) – R$ 5.600 (Pró-Labore) – R$ 1.090,60 (Impostos do Sócio)) para retirar como distribuição de lucros, que é totalmente isenta de imposto de renda.

 

Quando a migração para PJ realmente compensa?

A simulação é clara, mas a partir de qual faturamento essa mudança vale o esforço?

 

O ponto de virada: o faturamento que define a mudança

A migração para PJ envolve custos (abertura da empresa, mensalidade da contabilidade). No entanto, a economia de impostos é tão expressiva que esse “ponto de virada” é muito baixo.

Embora cada caso precise de uma simulação individual, a regra geral é que a partir de um faturamento mensal entre R$ 6.000,00 e R$ 8.000,00, a economia de impostos gerada pelo CNPJ já é suficiente para cobrir os custos contábeis e ainda gerar um lucro líquido maior para o médico. Acima de R$ 10.000,00 mensais, não há dúvida: atuar como autônomo é perder dinheiro.

 

E os benefícios? Comparando a aposentadoria (INSS)

Uma dúvida comum é sobre a aposentadoria. O autônomo, em nosso exemplo, contribuiu com R$ 1.557,20 (o teto) para o INSS, enquanto o PJ contribuiu com R$ 616,00 (sobre o pró-labore). O autônomo contribuiu mais, certo?

Sim, mas a um custo muito alto. O médico PJ, com a economia de R$ 3.442,37 por mês, pode pegar essa diferença, investir em uma previdência privada (PGBL, VGBL) ou em outros ativos e construir um patrimônio para a aposentadoria muito superior ao que o teto do INSS jamais pagará. Ele ganha controle sobre seu futuro financeiro.

O PJ não fica desprotegido. Ele contribui com o INSS sobre o pró-labore, garantindo seus direitos básicos (auxílio-doença, licença-maternidade, aposentadoria por tempo de contribuição). Ele apenas o faz de forma inteligente, sem gastar 20% do seu faturamento com isso.

Como uma contabilidade especializada garante essa economia

É fundamental entender que a economia do modelo PJ não é automática. Ela depende inteiramente de um planejamento tributário correto, especialmente da gestão do Fator R, para garantir o enquadramento no Anexo III.

Um contador que não é especialista na área da saúde pode, por desconhecimento, enquadrar a clínica no Anexo V (iniciando em 15,5%), tornando o PJ quase tão caro quanto ser autônomo. A escolha de uma contabilidade especializada em médicos é o que garante que a estratégia seja aplicada corretamente, mês a mês.

 

A sua carreira médica merece a máxima eficiência fiscal

A matemática é clara. O modelo de PJ ou autônomo médico não é uma questão de preferência, mas de inteligência financeira. A carga tributária sobre a pessoa física no Brasil é projetada para incentivar a formalização como empresa.

Manter-se como médico autônomo com um faturamento médio ou alto é uma decisão que, como provamos, significa deixar dezenas de milhares de reais em impostos legalmente evitáveis na mesa do governo todos os anos.

A transição para PJ, além de gerar uma economia massiva, oferece proteção patrimonial e profissionaliza sua carreira. Se você se identificou com a simulação do autônomo, está na hora de fazer uma consulta sobre a saúde tributária da sua carreira.

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